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Conto: Ele chegou

22.08.2015

 

 

“E da boca do dragão, e da boca da besta
e da boca do falso profeta vi sair três

espíritos imundos, semelhantes a rãs”


Apocalipse 16:13

 

Há uma semana, tudo começou.

 

Eu dirigia pela estrada com minha esposa, Fernanda, e meu filho, Mateus, de quatro anos. Durante o trajeto, ríamos dos disparates infantis da criança que nos surpreendia com sua inteligência e humor. Em certo momento, meu filho contou que havia caído e raspado o joelho. Minha esposa, como força de expressão, exclamou:

 

- Machucou? Que pecado!

 

Estranhamente, Mateus calou-se por instantes. Então, soltou o cinto, foi até o meio dos bancos e disse:

 

- Não, mãe, cair não é pecado. Pecado é trair Deus.

 

Eu e minha esposa nos olhamos espantados. O pequeno continuou:

 

- Quem gosta de Deus, está bem. Quem não gosta, vive em pecado.

 

- É verdade, Mateus – comentei, tentando encerrar o assunto, mas o garoto não estava disposto a concluir ali seu sermão.

 

- Moisés disse ao Senhor: “O povo cometeu grande pecado fazendo para si deuses de ouro”.

 

Espantei-me com a citação, provavelmente bíblica, vinda de uma criança tão pequena. Questionei minha esposa a respeito da escola, mas ela estava tão surpresa quanto eu, pois não tínhamos conhecimento de que seriam ministradas aulas de religião.

 

- Amanhã falarei com a diretora.

 

No meio da manhã seguinte, minha esposa telefonou-me no trabalho para conversarmos a respeito de finanças e outros temas domésticos. Findos os assuntos práticos, Fernanda comentou:

 

- Falei com a dona da escolinha, hoje.

 

- É? E como ela está? – perguntei, afinal, nem me recordava do assunto da noite anterior.

 

- Falei com ela sobre as aulas de religião.

 

- Ah, é? E como foi? O que ela disse? – tentei disfarçar, não deixando notar que havia me lembrado do assunto somente naquele momento.

 

- Bom, ela me disse que realmente não há aulas de religião na escola e que provavelmente Mateus ouviu aquilo de algum colega.

 

- Não há problemas quanto a aulas de religião – afirmei – só não quero um pastor mirim andando em casa.

 

- É, eu também. Mas ela disse que é normal a criança falar de Deus e de religião nessa idade, mas que não há aulas desse tipo na escola. Ela prometeu, inclusive, perguntar aos professores a respeito.

 

- Ótimo! Assunto resolvido – concluí, tapando, naquele momento, um gigantesco sol com uma minúscula peneira.

 

Após o almoço, visitei um cliente dono de uma livraria. Enquanto aguardava, aproveitei para olhar alguns livros. Em uma das prateleiras, nos mais variados tamanhos, formatos e cores, estava ela: a Bíblia Sagrada. Apanhei um exemplar e folheei ao acaso tentando recordar o que meu filho havia falado no carro. Disse baixinho para mim mesmo:

 

- Noé disse para Deus…Jesus disse que é pecado, deus feito de ouro…

 

- “Assim, tornou-se Moisés ao Senhor e disse: Ora, este povo cometeu grande pecado fazendo para si deuses de ouro”.

 

Era meu cliente, o dono da livraria.

 

Sorri e recoloquei o livro na prateleira, mas ele insistiu:

 

- Pegue para você. Pode pegar. É sempre bom ver alguém interessado no livro mais vendido e menos lido no mundo.

 

Sorri, peguei a Bíblia e perguntei:

 

- Essa parte que você citou…onde está?

 

- Êxodo 32:31. Mas eu posso indicar passagens muito mais interessantes. Mas vamos tratar de negócios?

 

Guardei o livro em minha pasta acompanhei-o até seu escritório para ajudá-lo nos detalhes finais da grande feira de livros infantis que ocorreria os próximos dias.

 

À noite, durante o jantar, tudo transcorria normalmente, até que Mateus perguntou:

 

- Pai, isso é vinho?

 

- Não, é groselha, filhão, por que?

 

- O vinho é o sangue do Cristo e o pão é a carne, não é? – disse, erguendo o copo como um padre faz durante uma missa.

 

Engasguei. Minha esposa levantou-se e bateu em minhas costas.

 

- Mateus, quem te ensinou isso? Foi na escola?

 

- Foi – respondeu, baixando o copo em um gesto ritualístico.

 

- Filho, qual é o nome da professora? – perguntou minha esposa.

 

- Que professora, mãe?

 

- Que está ensinando essas coisas sobre Papai do Céu.

 

- Não foi professora. Foi o menino da minha classe, meu amiguinho Lúcio – a dona da escola estava certa em afirmar que Mateus aprendera sobre religião com um colega.

 

Mais tarde, conversando com minha esposa, decidimos deixar essa história de lado. Não havia problemas maiores em Mateus falar de religião. Aquela fase passaria rápido, se não nos prendêssemos a ela. Grande erro de julgamento. Na noite seguinte, ao chegar em casa, fui recebido na garagem por minha esposa completamente aflita:

 

- Corre! É o Mateus! Aconteceu alguma coisa com ele!

 

Larguei meu carro aberto e entrei em casa imediatamente. Para meu espanto, deparei-me com Mateus sentado no chão da sala com as pernas cruzadas e semblante sereno. Antes que eu perguntasse qualquer coisa, meu filho cumprimentou-me:

 

- Olá, papai. Como foi seu dia?

 

- Mateus, está tudo bem?

 

- Sim, papai. Muito bem, obrigado.

 

Apesar de estar fisicamente intacto, seu tom de voz e seus trejeitos estavam sem energia, menos tensos e inquietos como são os das crianças dessa idade.

 

- Filho, fala comigo. Fizeram algo com você?

 

Ele riu suavemente, colocou-se em pé, veio até mim e me puxou, indicando que iria cochichar em meu ouvido. Baixei a cabeça até seus pequeninos lábios que disseram:

 

- “O que gera um tolo para a sua tristeza o faz; e o pai do insensato não tem alegria”, isso está nos Provérbios.

 

Levantei-me, nervoso e gritei:

 

- Filho, quem está ensinando essas coisas?

 

- Pai, eu já disse, foi o Lucio, meu amiguinho lá da escola.

 

- Pois eu vou te mudar de sala. Esse garoto está fazendo mal a você.

 

Minha esposa entrou em casa e encarou Mateus com medo, como se fosse um animal. Liguei imediatamente para a escola:

 

- Dona Miriam? Aqui é o Alan, marido da Fernanda, pai do Mateus. Como vai? Gostaria que meu filho estudasse em outra sala, com outra turma.

 

A mulher não se opôs a mim, apenas questionou o motivo pela explosão. Respondi:

 

- É um tal de Luis, Lúcio, não sei. É um coleguinha que está enchendo a cabeça de meu filho com citações bíblicas e ela está muito estranha.

 

A proprietária da escola respondeu-me que conhecia o garoto e que ele era completamente normal, saudável e inteligente. Afirmou, ainda, que nunca havia presenciado o garoto dizendo nada estranho. Ainda assim perguntei:

 

- Mas, Dona Miriam, quem é esse garoto? É algum filho de pastor?

 

Mateus aproximou-se de mim, colocou as mãozinhas sobre as minhas e respondeu:

 

- Ele é a Rocha, a obra perfeita, porque todos os seus caminhos são justos; Deus é a verdade e não há nele injustiça. É justo e reto.

 

Olhei com terror para aquela criança que, nem de longe, lembrava meu filho. Naquela noite, jantamos e dormimos cedo. Na manhã seguinte, fiz questão de levar Mateus à escola bem cedo. Pedi que ele apontasse o tal coleguinha dentre as crianças que entravam. Após uma hora de espera, percebi que o garoto não havia ido à escola naquele dia. Então, levei Mateus até a sala da diretora e reafirmei meu pedido de que ele deveria estudar em outra sala:

 

- Não precisa ser hoje. Pode ser amanhã. Hoje, notei que o tal Lúcio não veio.

 

- Lúcio? – perguntou Dona Miriam – Ele veio sim. Já está na sala de aula com a turma.

 

Em um impulso incontrolável de curiosidade e temor, larguei Mateus e Dona Miriam e corri até a classe de meu filho. Queria muito conhecer o pequeno pregador que havia doutrinado Mateus. Ao me aproximar da sala, pensei que a aula já havia começado, pois não havia nenhum grito ou sinal de bagunça normalmente causado por crianças de quatro anos. Enganei-me. Sob uma cadeira, cercado de crianças, estava um belo menino de cabelos castanhos e olhos azuis. Ele falava alto e todos ouviam atentamente:

 

- E todo o que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras, por amor do meu nome, receberá cem vezes tanto e herdará a vida eterna.

 

Entrei na sala deslumbrado, o menino me olhou, desceu da cadeira e, num leve sinal, fez com que as demais crianças se sentassem em silêncio. Então, veio até mim, apontou para si mesmo e disse:

 

- Qualquer que receber em meu nome um menino, tal como este, a mim recebe.

 

Fiquei sem palavras, extasiado pela suavidade paradoxalmente firme daquele jovem prodígio. Caí de joelhos. Lúcio colocou a mão no meu ombro e perguntou:

 

- Você sabe quem eu sou?

 

Não tive palavras. Meu coração bateu rápido e minha mente encheu-se de amor e terror.

 

- Olhe as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo. Apalpe-me e veja, pois um espírito não tem carne nem ossos, como eu tenho – Lúcio concluiu.

 

Corri de lá com o espírito em chamas, sem saber o que sentir ou o que achar. Seria ele algum santo? Seria Deus? Teria, Jesus, voltado à Terra? Passei pela sala da diretora e despedi-me sem convicção. Deveria tirar meu filho de perto daquela presença? Lembrei-me do dono da livraria, meu amigo e cliente, um homem sábio, bondoso e conhecedor da Bíblia e mistérios do ocultismo. Se alguém pudesse me ajudar a manter a sanidade, seria ele. Cheguei à livraria e detalhei toda história, implorando que ele me ajudasse. Após me ouvir com atenção, ele fechou a livraria e me conduziu até o fundo da loja, onde uma sala trancada guardava estantes empoeiradas, livros raros, gravuras antigas, teias de aranha e diversos objetos estranhos.

 

- Não se incomode com a sujeira. Só trago aqui estudiosos e clientes muito específicos. Aqui há raridades que fariam Umberto Eco reescrever O Nome da Rosa – brincou.

 

Reconheci volumes escritos em grego, latim, aramaico, egípcio, chinês e persa. Confesso que alguns livros e pergaminhos continham caracteres muito estranhos. Meu amigo comentou:

 

- Pelo pouco que você descreveu, esse menino usou citações bíblicas em todas as frases. Considerando que você não tenha exagerado em nada, estamos diante de quatro possibilidades.

 

 

Andou até uma mesa antigo, abriu um livro gigantesco e começou a folheá-lo.

 

- Ele pode ser o Cristo, em sua tão esperada segunda vinda. O que não creio, devido ao terror que ele lhe causou.

 

- E põe terror nisso. Você precisava ver os olhos dele. Entraram em minha alma.

 

- Ele também pode ser um falso profeta, ou seja, alguém que pregará como um cristão, mas suas palavras estarão cheias de mentiras. Mas se ele só citou a Bíblia, também não o classificaria como um falso profeta.

 

- Sim, mas, além de Cristo e o falso profeta, quais as outras duas possibilidades?

 

- Uma é o anti-Cristo, ou seja, a esperada Besta do Apocalipse encarnada. Ainda assim, há estudos feitos por mim e amigos meus do mundo todo de que o anti-Cristo já esteja entre nós há mais de vinte anos, dados os sinais. Por isso, creio que estejamos diante da quarta e pior hipótese.

 

Respirou fundo e olho para cima, como se procurasse no vazio algo que o consolasse.

 

- Ele pode ser o próprio demônio que foi liberto de seu cativeiro e chegou para consolidar seu império de mil anos.

 

Ele falava sério. Ao mesmo tempo que eu temia a possibilidade e acreditava em meu amigo, também ficava em dúvida cada vez que me lembrava da doçura encantadora do jovem Lúcio.

 

- O que devo fazer? Como saberei? – perguntei, temendo por meu filho e por minha alma.

 

- Este livro é uma dos poucos textos apócrifos da Bíblia que não foram destruídos. Existem apenas quatro cópias e somente a minha e a do Papa estão legíveis. Dizem que esta obra foi ditada pelo próprio Cristo para que ele seja reconhecido em sua volta. São diversas fórmulas ilustradas que ensinam a comprovar a divindade do ser.

 

- Então diga uma maneira, qualquer uma!

 

- Calma! Preciso traduzir isso. Mas antes de chegarmos a esse extremo, que tal se eu conhecesse esse pequeno notável que você tanto teme? De repente, uma simples olhada será suficiente.

 

Concordei e, horas mais tarde eu e ele esperamos na porta da escola, a saída de Mateus e de Lúcio. Estranhamente, todas as crianças saíram, exceto os dois. Perguntei por Mateus e uma professora respondeu que minha esposa havia pego o menino há algumas horas. Aproveitei para perguntar de Lúcio. A resposta foi ainda pior:

 

- Ele acabou de sair. Abri a porta para ele há alguns minutos.

 

- Impossível. Estou plantado aqui há quase duas horas e não o vi sair – respondi.

 

- Calma, senhor. Acho que o senhor se distraiu.

 

Antes que eu brigasse com a moça, meu amigo interveio:

 

- Qual é o seu nome?

 

- Adriana.

 

- Huuum, Adriana, o que você acha do jovem Lúcio?

 

Adriana enrubesceu. Notadamente sem-graça:

 

- A-a-cho? Co-co-como assim? Ah, sei lá, normal.

 

Meu amigo insistiu:

 

- Você gosta dele? Conhece os pais dele?

 

Diante da segurança que meu amigo transmitia, Adriana relaxou e começou a falar:

 

- Olha, eu morro de medo dele. Ele é muito estranho. Ontem, no balanço, ele revelou segredos a meu respeito que nunca contei a ninguém. E os pais dele…

 

Meu amigo me olhou, segurou as mãos de Adriana e perguntou:

 

- Diga, Adriana, o que tem os pais dele?

 

- E-e-eu nã-não me lembro deles. Agora que o senhor perguntou, não consigo me lembrar. Sei que eles vieram hoje, como fazem todos os dias, mas não me lembro do rosto ou das vozes…A-a-acho que estou muito nervosa!

 

Percebemos que havia algo sobrenatural na informação da jovem professora. Agradecemos, saímos e voltamos à livraria.

 

- É – disse meu amigo – não me parece coisa boa. Traduzirei algumas coisas hoje, mas primeiro tenho que descansar. Amanhã será um dia corrido, por causa da feira de livros.

 

Pensei que naquele dia nada mais me surpreenderia, porém encontrei uma cena inesperada em meu próprio lar. Mateus estava sentado à mesa da sala desenhando, enquanto minha esposa repousava em nosso sofá com um olhar distante.

 

- Está tudo bem, amor? – perguntei.

 

- Boa noite, querido. Busquei Mateus mais cedo hoje.

 

Estranhei aquele tom de voz e aquela frase despreocupada. Precisava afastar Mateus da sala para revelar as descobertas estranhas do dia, mas antes que eu dissesse algo, Fernanda antecipou:

 

- Mateus, querido, vá desenhar na cozinha.

 

Assim que meu filho saiu, tentei alertar minha esposa:

 

- Amor, precisamos tirar Mateus da escola. Talvez, até mudar de cidade.

 

- Fique calmo, amor. Foi tudo um mal-entendido. Hoje eu fui até a escola e conheci Lúcio.

 

- Conheceu? Como assim?

 

- Sim, foi maravilhoso, mágico e especial. Ele me disse para não ter mais medo. Que garoto incrível. Você precisa conhecê-lo.

 

O horror tomou conta de mim. Dei um passo para trás tentando assimilar o que estava acontecendo. Ela continuou:

 

- Ele olhou em meus olhos e me disse: “Eu vou te mostrar quem você deve temer; tema aquele que, depois de matar, pode lançá-lo no inferno; sim, tema esse”. Quando ele me disse aquilo, com aqueles olhos azuis brilhando em minha alma, percebi que ele é muito importante para mim, para você e para toda a humanidade. Ele veio nos salvar.

 

- Não, querida, ele não pode ser bom. Ele é alguma coisa infernal que…

 

- Papai, olha meu desenho – Mateus voltou interrompendo a discussão.

 

Minha esposa sorriu com expressão vazia, morta. Mateus havia representado em traços infantis ele, um coleguinha da escola chamado André, eu e minha esposa Fernanda ajoelhados em posição de oração. Ao centro, em vermelho, um garoto brilhando como o Sol e seu nome logo abaixo: Lúcio.

 

 

 

Tomei o papel das mãos do garoto e o amassei. Sem argumentos, peguei uma garrafa de vinho e fui até a garagem. Durante toda a madrugada, bebi e folheei a Bíblia, especialmente o Apocalipse. De vez em quando ouvia meu filho e minha esposa conversando. Sempre com aquela voz branda e exageradamente agradável. Senti falta das costumeiras canções infantis, do som da TV e até dos gritos de Fernanda. Adormeci e tive um terrível pesadelo em que Lúcio comia um carneiro vivo que balia e chorava. O menino estava coroado, cercado de pessoas nuas que o adoravam. Após sua refeição, ele se virou para mim e disse para não me preocupar que logo eu o amaria também. Acordei no meio da manhã seguinte com o cachorro da vizinha latindo muito. Minha cabeça doía por causa da ressaca. Entrei em casa para me recompor e, principalmente, beber muita água. Na mesa da cozinha, um bilhete de minha esposa:

 

 

Querido, eu entendo o seu medo. Eu também estava apavorada, lembra? Eu estava confusa, mas Ele clareou minha mente e me perdoou. Ele me disse que as pessoas se assustam com a Verdade, no início, mas que logo ela nos liberta.

 

Amor, te amo. Estou saindo de casa e levo Mateus comigo. Logo você entenderá e nossa família voltará a ser feliz, sob a benção de Nosso Salvador, Lúcio”

 

 

Onde teriam ido? Para a escola, talvez? Peguei meu carro, uma garrafa de água e rumei para a escola que estava estranhamente vazia. Depois de muito chamar, fui recebido por Adriana.

 

- Olá, senhor Alan, tudo bem?

 

- Adriana, onde estão todos? Mateus veio estudar hoje?

 

Adriana sorriu.

 

- Sim, Mateus veio. Inclusive sua esposa está com ele.

 

- E onde eles foram? Lúcio também foi?

 

- Todos saíram, apenas eu estou aqui para cuidar de tudo. Lúcio foi com eles. Quero aproveitar e lhe pedir perdão pelos absurdos que disse ontem a respeito de Lúcio. Ele é maravilhoso. Eu estava confusa.

 

Sim. Ela se disse confusa. O mesmo termo que minha esposa usou no bilhete. Eu precisava pensar, entender o que estava ocorrendo. Saí com o meu carro sem destino a princípio, mas acabei parando em uma igreja. Nunca havia rezado antes, mas naquele momento, a única maneira sensata de me acalmar pareceu ser uma prece. Ajoelhei-me naquela igreja vazia e pedi a Deus por algum sinal de que aquele garoto era Seu enviado. Uma voz veio de trás de mim:

 

- Gosta de criança?

 

Virei-me. Era um padre.

 

- Como assim? – perguntei.

 

- Ora, quem vem a essa igreja geralmente quer adotar uma criança. Essa é a Capela dos Vinte e Dois Órfãos. Somos um humilde orfanato.

 

- É? – perguntei – E onde estão as crianças?

 

- Ah, meu filho, hoje você deu azar. Foram todas à tão esperada Feira Literária Infantil.

 

Quando ouvi aquilo, perdi o chão. Claro. A feira literária que eu próprio estava organizando e que aconteceria por intermédio de meu amigo e cliente. Todas as crianças da cidade iriam para lá.

Peguei imediatamente meu celular, minhas mãos tremiam, o padre fez sinal da cruz e se afastou.

 

- Alô, Adriana? Aqui é o Alan, pai do Mateus. Onde os alunos da escola foram hoje?

 

- Na feira literária, o senhor não estava sabendo?

 

Desliguei e corri até meu carro. Pensava em Mateus, em Fernanda e em meu amigo naquela feira, indefesos e sob a influência de Lúcio. Será que meu amigo reconheceria Lúcio e conseguiria comprovar seu caráter sobrenatural? O trânsito estava parado e ninguém atendia às minhas ligações, nem minha esposa, nem a livraria. Liguei o rádio.

 

- É um fenômeno incrível, caros ouvintes. Quase duas mil pessoas, em sua maioria crianças, ajoelhadas ouvindo aquele maravilhoso garoto falar.

 

Meu coração subiu à garganta, troquei a estação:

 

- Quem é esse menino abençoado? Pessoas de todas as partes da cidade estão se dirigindo à Feira Literária. É um milagre. Venha você também.

 

Com os dedos tremendo, troquei uma última vez.

 

- O prefeito e o governador estão indo nesse instante para a Feira. É um momento único para a humanidade. O presidente declarou feriado nacional e…

 

Desliguei o rádio. O trânsito já não andaria mais. Olhei para os lados e vi pessoas deixando seus carros, extasiadas, caminhando como zumbis para o centro da cidade. No alto de um edifício, um telão mostrava milhares de pessoas em torno de um palco. Letras vermelhas indicavam: Imagens ao vivo de nosso helicóptero. Fui a pé até minha casa, cheguei exausto. As pessoas seguiam no sentido oposto dizendo que esse era o Ano Zero da humanidade, que o Salvador havia chegado. Peguei todos os mais variados comprimidos de minha caixa de remédios e tomei de uma vez com um único gole de uísque. Joguei-me no sofá e brindei:

 

- A Lúcio, o deus encarnado.

 

Desmaiei.

 

Acordei nessa cama de hospital, hoje, domingo. Exatamente uma semana após meu filho citar a Bíblia, naquela noite, em meu carro. Não sei quem me socorreu, mas preferia estar morto. Há poucos minutos, Mateus entrou no quarto, me beijou no rosto e deixou no criado-mudo aquele desenho que eu havia amassado há dias. Também acabei de ser visitado por meu amigo, o dono da livraria. Com o mesmo olhar vago, ele me disse que estávamos errados, que Lúcio é mesmo o Messias. Para concluir, ele afirmou:

 

- Eu estava confuso.

 

Eu não respondi nada. Ele se levantou, beijou-me a testa e, antes de sair, disse:

 

- Lúcio está vindo. Ele quer lhe ver. Em uma hora ele entrará nesse quarto e então você entenderá.

 

Agora estou aqui, escrevendo essas memórias para que alguém, algum dia, leia e saiba o que ocorreu. Sei que logo que aqueles olhos azuis entrarem em minha alma, serei como os outros, me considerarei anteriormente confuso e aceitarei cegamente o novo deus, o menino-monstro, o menino-anjo que está maravilhando toda a humanidade. O Rei da Nova Ordem. Pode ser só coincidência, mas peguei o desenho de Mateus, onde ele nos rabiscou prostrados a Lúcio, picotei em diversos pedacinhos e atirei pela janela. Assim que os pequenos papéis voaram, uma repentina lufada de ar devolveu certos pedaços que caíram aleatoriamente em meu colo, sobre o cobertor do hospital.

 

Neles, li na caligrafia infantil de Mateus uma estranha montagem:

 

 

 

LUCIFER REAL DEUS

 

Tremi e sacudi o cobertor. A porta do quarto está se abrindo.

 

Ele chegou.

 

 

 

 

 

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Luciano Milici :: Ficções é a página pessoal e o blog oficial do autor Luciano Milici. Todos os textos são de autoria própria, exceto quando citada a fonte/referência. Proibida a cópia digital ou impressa sem autorização escrita do autor e citação da autoria. Comentários no blog podem ser moderados de acordo com a qualidade do conteúdo. Contate luciano.milici@gmail.com

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