SETEALÉM - O dia em que quase fui para um universo paralelo


SETEALÉM - UNIVERSO PARALELO

INTRO

Quem me conhece, seja pessoalmente, seja por conta da minha identidade secreta de escritor e roteirista, sabe que eu escrevi meu primeiro conto “O Cavaleiro do Espírito de Prata” aos seis anos e, desde então, nunca mais parei de produzir. Todos os dias, ou melhor, todas as noites, crio algo. Seja feriado, Natal, Hanukkah, Shomer Shabbos (sorry, Walter Sobchak) ou Apocalise Zumbi.



Geralmente, meus textos são ficcionais e produzidos para algum fim bem específico: livros (meus ou para terceiros, como ghostwriter), filmes, séries, curtas metragens ou websites. A prova disso é que essa página está extremamente defasada.


Fugindo um pouco dessas duas tradições, a de escrever ficção e a de deixar essa página às moscas, resolvi – pressionado por novos amigos anônimos – contar um fato estranho que aconteceu comigo há alguns anos. Na verdade, há muitos anos. Foi no milênio passado, só para você se situar cronologicamente.


Tudo começou com uma lista do BuzzFeed intitulada “9 histórias que farão você acreditar em universos paralelos”, onde comentei, sem pretensões, sobre um acontecimento que ocorreu comigo e que eu não conseguia explicar racionalmente. A repercussão e o buzz (feed) foram inesperados. Centenas de pessoas começaram a me pedir para detalhar meu relato e outros que coletei do mesmo gênero. Recebi e ainda estou recebendo muitas mensagens e solicitações de amizade de interessados nas histórias.


Conforme contei (e recontarei abaixo), mais de dez anos após a experiência que vivi, criei um grupo no extinto Orkut (R.I.P.) onde mantive contato com pessoas que passaram por algo muito semelhante ao meu relato. O mais interessante foi que o nome e a descrição da comunidade não explicavam nada, exatamente para não influenciar os relatos. Quando o grupo começou a se desvirtuar (ah vá! No Orkut? Duvido), eu encerrei a comunidade, não sem antes salvar o conteúdo. Estou em busca do arquivo compactado em algum HD ou mídia. Enquanto não encontro, deixo abaixo os casos que me recordo.


Antes de começar a ler, tenha em mente cinco pontos:


i. Não sei se os relatos são verídicos. Só posso falar a respeito do meu. Ele é.

ii. Preservarei o nome verdadeiro dos envolvidos, pois não tenho autorização de contar histórias pessoais deles, mesmo após tantos anos.

iii. Se você for uma das pessoas dos casos citados e quiser que eu retire ou corrija seu relato, me avise.

iv. Se você passou por alguma experiência semelhante, me envie seu relato para eu incluir aqui.

v. Os relatos de terceiros foram reescritos por mim. Não alterei nada do conteúdo, apenas mudei a forma, pontuação e fiz algumas correções, sem ferir em nada a história contada.


Observação: não sei se o nome do “lugar” se escreve Setealém, 7Além ou Cetealém. Só ouvi o nome, não li.



Relato 01: Uma passagem para Setealém


Setealém

1994. Eu estava no segundo ano da faculdade. Tinha dezenove anos e lamentava o fato de que só poderia cursar o período noturno a partir do próximo ano. Os dois primeiros anos eram obrigatoriamente matutinos, o que dificultava a busca por empregos ou estágios. Até então, minha experiência se resumia a um longo período como gerente de uma vídeo-locadora, que era como se chamava o Netflix da época.


Mesmo morando longe da faculdade, eu adorava o caminho de volta. Os longos trechos à pé até


chegar no ponto de ônibus para, em seguida, tomar o Metrô me permitiam observar como as pessoas eram diferentes em seus trajes, gestos e falas. Tudo aquilo era subsídio para novas histórias que eu, diariamente, escrevia. Também aproveitava o caminho para ler.


Normalmente, caminhava até lá para tomar um ônibus, qualquer ônibus – o primeiro que passasse – pois todos levavam para um ponto da avenida onde eu facilmente acessaria o Metrô. Não importava o nome, o número ou a cor do ônibus, todos obrigatoriamente iam até o fim da avenida, para então, seguirem seus itinerários. Isso era bom, porque eu não me demorava mais que dois minutos no ponto.


Naquela tarde quente de outubro, após uma exaustiva aula de Mercadologia, segui meu caminho costumeiro até uma grande e famosa avenida há alguns minutos do campus. Cheguei no ponto e coloquei um CD, acho que do Nação Zumbi, no discman. A pilha estava acabando e a voz do Chico Science parecia demoníaca. Um ônibus chegou e parou. Entrei e substituí o discman por um livro.


Em média, o trajeto demorava de vinte e cinco a trinta minutos por causa do trânsito e, quando eu tinha sorte de encontrar um banco vazio, lia várias páginas. Naquele dia, nem quinze minutos se passaram e senti a mulher ao meu lado, no banco, me cutucar. Parei de ler e olhei para ela.


- Você não vai para Setealém, vai? – ela perguntou.


Apertei os olhos, tentando entender o que ela havia dito. Teria sido Santarém?


Ela insistiu:


- Esse ônibus vai para Setealém. É melhor você descer.


Sorri para ela. O nome “Setealém” havia ficado claro, mas o conselho não fazia sentido. Olhei para os lados e todos, absolutamente todos do ônibus estavam me olhando. Uma outra mulher, em pé, um pouco mais à frente, falou:


- É, vai...desce, moço.


Próximo a ela, um rapaz com uma pasta na mão acenou positivamente com a cabeça e foi mais incisivo:


- Desce aí!


Antes que eu perguntasse o que estava acontecendo, o cobrador – que também me olhava, com o maço de notas na mão – gritou para o motorista:


- Vai desceeeeer!


O ônibus parou na hora. Ali não era um exatamente um ponto, mas eu não liguei. Levantei-me rapidamente do banco e fui em direção à porta aberta. As pessoas no corredor abriram caminho acompanhando-me com o olhar.


Desci.


Confesso que, na hora, dezenas de pensamentos me ocorreram. Seria um ônibus particular? Não. Havia um cobrador, afinal de contas. Teriam me confundido com alguém? Talvez. Assim que pisei no asfalto, o ônibus retomou o caminho, até que, estranhamente, virou à direita em uma ladeira de paralelepípedos. Um trajeto incomum.


Aquele nome "Setealém" nunca mais saiu da minha mente. Seria um bairro? Uma cidade? Perguntei aos meus conhecidos e até olhei no Guia de Ruas, uma espécie de Waze do século passado, onde seu dedo indicador fazia o papel do carrinho. Ninguém nunca reconheceu esse nome nas proximidades ou até em outro lugar do mundo.


Sei que, dias depois, passei a sonhar com Setealém e, desde então, pelo menos uma vez por mês me vejo em suas estranhas ruas, durante o sono.


A comunidade no Orkut


Setealém

Mais de dez anos depois, decidi utilizar a então popular rede social Orkut para descobrir mais sobre Setealém. Criei uma comunidade com esse nome, mas não escrevi exatamente do que se tratava o grupo. Eu queria que o nome trouxesse respostas. Foi uma maneira de verificar se meu delírio fazia algum sentido.